Os meningiomas parassagitais representam um dos desafios técnicos mais delicados na neurocirurgia devido à sua localização crítica: eles surgem no ângulo entre a foice do cérebro e a convexidade, intimamente relacionados ao seio sagital superior. A grande complexidade desses tumores reside no grau de invasão desse seio venoso, que é o principal canal de drenagem sanguínea do cérebro. A tentativa de remoção cirúrgica completa (ressecção grau 1 de Simpson) em tumores que invadem totalmente o seio carrega um risco elevado de trombose venosa, infarto venoso e sequelas neurológicas graves, tornando a abordagem puramente cirúrgica muitas vezes perigosa.
Nesse cenário, a radiocirurgia estereotáxica (como Gamma Knife ou CyberKnife) surge como uma ferramenta fundamental, mudando o paradigma do “tudo ou nada” para uma abordagem de preservação funcional. A técnica consiste na aplicação de uma dose alta e precisa de radiação ionizante diretamente no volume tumoral, com queda rápida da dose para os tecidos vizinhos. O objetivo biológico não é a remoção imediata da lesão, mas sim causar dano ao DNA das células tumorais para interromper sua divisão e crescimento, levando, em muitos casos, à necrose central e redução do volume do tumor ao longo do tempo.
Atualmente, a estratégia mais aceita para grandes meningiomas parassagitais é o tratamento híbrido ou combinado. O neurocirurgião realiza a microcirurgia para remover a porção do tumor que comprime o cérebro e causa sintomas, descomprimindo a área, mas deliberadamente deixa um pequeno resíduo tumoral aderido à parede do seio sagital para não lesar a veia. Num segundo momento, esse resíduo é tratado com a radiocirurgia. Essa abordagem maximiza a segurança do paciente, mantendo a drenagem venosa intacta, enquanto garante taxas de controle tumoral que superam 90% em 5 a 10 anos.
Apesar de ser um procedimento minimamente invasivo, a radiocirurgia exige um acompanhamento rigoroso. O efeito da radiação não é imediato — pode levar meses ou anos para o tumor reduzir ou estabilizar — e existe o risco de edema peritumoral (inchaço) transitório após o procedimento. Por isso, o seguimento com ressonância magnética seriada é obrigatório para monitorar a resposta do tumor e garantir que não haja recidiva ou efeitos adversos tardios, assegurando que a doença se torne uma condição crônica controlada, em vez de uma ameaça aguda à vida.