O cavernoma do tronco encefálico (também chamado malformação cavernosa ou angioma cavernoso) é uma lesão vascular benigna formada por aglomerados de vasos sanguíneos dilatados, finos e frágeis, sem tecido cerebral normal entre eles, localizados no tronco encefálico — a região mais crítica do cérebro, que controla funções vitais como respiração, batimentos cardíacos, consciência, movimentos oculares, equilíbrio e nervos cranianos. Diferente de cavernomas em outras áreas cerebrais, os do tronco encefálico representam apenas 10-20% dos casos, mas são os mais perigosos devido ao risco elevado de hemorragia (taxa anual de 2-5% por lesão, podendo chegar a 30% após sangramento prévio) e à localização em área eloquente, onde mesmo um pequeno sangramento pode causar déficits graves ou morte. Muitos são descobertos incidentalmente em RM, mas quando sintomáticos, surgem por hemorragias repetidas ou micro-hemorragias que deixam halo de hemossiderina característico na imagem.
Os sintomas variam conforme a localização exata (mesencéfalo, ponte ou bulbo) e o número de sangramentos prévios, mas incluem fraqueza ou paralisia em um ou ambos os lados do corpo, dificuldade para engolir (disfagia), alterações na fala (disartria), visão dupla (diplopia), desvio ocular, vertigem intensa, tontura, desequilíbrio grave (ataxia), síndrome de locked-in (em casos graves na ponte), coma ou parada respiratória em hemorragias extensas. Dores de cabeça súbitas, náuseas, vômitos e rigidez de nuca podem indicar sangramento agudo. A RM com sequências SWI ou GRE revela o clássico aspecto de “pipoca” ou “mulberry” com halo escuro de hemossiderina, confirmando o diagnóstico sem necessidade de angiografia convencional na maioria dos casos.
O tratamento do cavernoma do tronco encefálico é controverso e sempre individualizado. Lesões assintomáticas ou com sangramento único pequeno são geralmente monitoradas com RM anual, pois o risco cirúrgico é alto. Quando há hemorragias recorrentes, déficits neurológicos progressivos ou lesão acessível na superfície do tronco (ex.: exofítica na ponte), a microcirurgia é considerada — com remoção completa do cavernoma para eliminar o risco de re-sangramento (taxa de cura >90% quando removido totalmente). Técnicas avançadas incluem neuromonitorização intraoperatória, mapeamento de tronco e acesso minimamente invasivo (via cerebelo-pontino ou telovelar). A radiocirurgiaé opção em lesões profundas inacessíveis, reduzindo o risco de hemorragia futura em 70-90% após 2-3 anos, mas não remove a lesão imediatamente e pode causar edema temporário ou novos déficits em 5-10% dos casos.
O prognóstico depende do número de sangramentos prévios, tamanho da lesão e acesso cirúrgico. Após hemorragia grave, muitos pacientes recuperam parcialmente com reabilitação intensiva, mas sequelas como tetraparesia, disfagia crônica ou ataxia podem persistir. Como neurocirurgião, enfatizo: cavernomas do tronco encefálico exigem avaliação multidisciplinar urgente em centros especializados — não ignore sintomas neurológicos súbitos ou progressivos no tronco (visão dupla, fraqueza facial, dificuldade para engolir). RM precoce e decisão cirúrgica precisa podem salvar vidas e preservar funções vitais. Se você ou alguém próximo apresenta esses sinais, procure um neurocirurgião de referência imediatamente — o tempo é crítico nessa localização tão delicada.